Roberto Fendt
Excessos e deficiências na política econômica
Excessos e deficiências na política econômica
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O Fundo Monetário Internacional (FMI) acaba de divulgar o seu relatório “Perspectivas Económicas – Las Américas: Vientos cambiantes, nuevos desafíos de política”, encontrável no sitehttp://www.imf.org/external/pubs/ft/reo/2011/whd/eng/wreo1011.htm.
Vale a pena ler o que diz o relatório e comparar suas recomendações com o que estamos fazendo em matéria de política econômica.
O relatório começa com o pano de fundo. Não é o mais favorável. A atividade econômica mundial está desacelerando e é crescente a preocupação com o futuro próximo. Não que a desaceleração econômica acelerada seja um fenômeno generalizado. Por certo não inclui as principais economias emergentes, entre elas a China e a Índia. Longe disso. Se alguma desaceleração vier a ocorrer nessas economias, será de meio ponto percentual em taxas de crescimento que beiram os 10% ao ano.
O problema está localizado nos países desenvolvidos. A debilidade dos orçamentos dos setores públicos e dos balanços das empresas privadas desses países não somente são maiores do que anteriormente se estimava. Essa debilidade também não lhes permite enfrentar a sucessão de choques que, como ondas, persistem em assolar as economias desenvolvidas desde o início da crise, em 2008.
Esses choques decorrem de várias causas. A principal delas é a interação perversa entre dívidas soberanas impagáveis de alguns países e a incapacidade de alguns dos principais países desenvolvidos em pôr em prática políticas para enfrentar os problemas de solvência de seus bancos comerciais.
Com isso, aumentou a volatilidade nos mercados financeiros e a aversão ao risco dos investidores, agravando os problemas dos sistemas financeiros, particularmente na Europa. O resultado final dessa inação é a forte desaceleração do crescimento nas economias avançadas, especialmente da Europa e do Japão.
Tudo isso se reflete nas economias emergentes. Até agora, os efeitos estão restritos às bolsas de valores, às taxas de câmbio e aos preços das commodities. Mas há fundados receios de que, a persistir o atual quadro, o lado real dessas economias possa ser também negativamente atingido.
A despeito dessas preocupações, contudo, as economias emergentes não encontraram até o momento dificuldades de financiamento externo nem apresentaram graves problemas de balanço de pagamentos. O cenário de referência do FMI mostra uma desaceleração moderada para os países emergentes. A taxa média de crescimento desse grupo de países está estimada em 6,5% este ano, em grande parte devida à forte expansão dos emergentes asiáticos.
O cenário prevê ainda que a perda observada nos preços internacionais das commodities exportadas pelos países latino-americanos afetará muito pouco essas economias em 2011.
O problema é que os riscos para 2012, decorrentes da permanência da crise europeia, estão aumentando. Esses riscos estão associados à possibilidade de transmissão e contágio da crise bancária europeia aos países latino-americanos. Ao lado desse, não é menor o risco de uma desaceleração no crescimento dos países exportadores asiáticos em decorrência de uma desaceleração ainda mais pronunciada nos países desenvolvidos. Essa possibilidade já está afetando os preços das commodities e poderá reverter a alta recente, caso venha a materializar-se.
O cenário oposto, de uma solução para a crise europeia, também não é isento de riscos. Nesse cenário, os fluxos de capitais voltariam a fluir para os países latino-americanos, valorizando as taxas de câmbio e exacerbando o problema de aceleração da inflação em algumas das economias da região.
As recomendações do FMI para lidar com um agravamento da crise são conhecidas. A política monetária como primeira linha de defesa e a continuidade da consolidação fiscal – eufemismo para equilíbrio das contas públicas. Ao lado dessas, a flexibilidade cambial e a continuidade das medidas macroprudenciais. Aprendemos muito com a crise de 2008 e pusemos em prática diversas medidas de natureza monetária e fiscal que nos permitiram atravessar aquela crise pouco arranhados.
Os gestores da política econômica penitenciam-se hoje de não ter-se baixado o suficiente a taxa Selic em 2008 e 2009. Para isso, já a estão baixando preventivamente, embora nada se possa afirmar com certeza do que virá.
Ao estarmos na contramão das recomendações do Fundo para a região não estaríamos errando hoje por excesso, quando antes erramos por deficiência na questão da taxa de juros?