Diário da Rússia

Roberto Fendt

O que não é proibido, é compulsório

O título da coluna foi sugerido por leitor, referindo-se à Coreia do Norte, ao pedir-me que comente o que se passa por lá e, principalmente, o que pode vir pela frente.

Caro leitor, paradoxal que possa parecer, minha primeira reação ao ver as fotos do “Grande Sucessor” Kim Jong-eun ao lado de seu pai ou cercado de militares, foi a lembrança de François “Papa Doc” Duvalier e de seu filho, Jean-Claude “Baby Doc” Duvalier. Foi olhando para o Haiti no Caribe que pensei na Coreia no distante Oriente.

O primeiro foi presidente do Haiti de 1957 até sua morte, em 1971. Embora eleito regularmente com uma plataforma populista e nacionalista, veio a implantar um regime de terror baseado em sua milícia rural. Durante seu governo, implantou um culto à sua personalidade como forma de legitimação de sua autoridade. A partir de 1964, proclamou-se presidente vitalício. Durante os 14 anos em que esteve no poder, os seus Tonton Macoutes mataram 30 mil haitianos.

Ao morrer, foi substituído por seu filho Jean-Claude, então com 19 anos. A inexperiência o levou a delegar os assuntos do governo a subordinados e a levar uma vida de luxo à custa do erário público. Em 1986, abandonou o país para exilar-se na França.

O que tem isso a ver com Kim Jong-il e seu filho Kim Jong-eun? É claro que não estou, tão prematuramente, a prever como terminará um governo que ainda não se iniciou, na prática. O futuro a Deus pertence, como já nos havia dito São Tomás de Aquino.

O que tenho em mente são as semelhanças, reveladoras de algo mais profundo e característico das formas mais primitivas de autoritarismo. A principal dessas semelhanças é o messianismo, a noção de que o Grande Líder, por alguma causa suficiente mas pouco esclarecida (Deus? O Destino?), é necessário para a governança e a felicidade do povo.

Se no Haiti Papa Doc não era endeusado, fica pouca dúvida de que o fundador do Estado norte-coreano, Kim Il-sung, e particularmente, seu filho e sucessor, Kim Jong-il, instituíram um culto à personalidade que encontrou paralelo somente em Stalin e Mao Zedong.

No Haiti, Papa Doc não confiava no exército regular e criou uma guarda pretoriana para protegê-lo das forças armadas, os Tonton Macoute. Na Coreia, o apoio dos militares é indispensável, já que não há como formar uma milícia que pudesse se opor a cinco milhões de pessoas em armas. Mas, tanto num caso como no outro, não há dúvida onde reside o poder real.

Os resultados até agora mostram que essas formas extremadas de autoritarismo desembocam sempre na mesma tragédia. No Haiti, de pequena população, o regime matou 30 mil; na Coreia do Norte, três milhões morreram de fome, enquanto o Grande Líder era notório consumidor de conhaque Hennessey e apreciador da boa mesa.

Conseguirá o Grande Sucessor, com seus 28 anos presumíveis, manter com mão de ferro a dinastia fundada por seu avô? Kim Jong-il foi preparado durante 14 anos para suceder seu pai; Kim Jong-eun teve somente três anos de preparação, e a sua pouca idade não lhe confere grande legitimidade entre uma elite militar de idosos.

No país em que o que não é proibido é compulsório, o isolamento do restante do mundo – com a exceção da China, de que depende – não contribui para melhorar as coisas. Sabemos os resultados de mais de 50 anos de embargo comercial pelos Estados Unidos, sem qualquer consequência sobre o autoritarismo do regime.

Se é verdade que o isolamento foi autoimposto, é também verdade que há uma oportunidade nessa transição para um início de abertura do país ao restante do mundo.

Se houver vontade política da China, Coreia do Sul e Estados Unidos, os principais interessados na paz na região, talvez tenha chegado o momento de, através dos canais possíveis, levar adiante o programa que estava em negociação para aumento da oferta de alimentos ao país, em troca de um compromisso em torno do desarmamento nuclear da Coreia do Norte.

O momento é muito mais de torcida por um final feliz, caro leitor, que propriamente de análise do futuro de um regime mais decrépito hoje do que o da União Soviética em 1989.

[Este artigo foi originalmente publicado no "Diário do Comércio", de São Paulo.]