Diário da Rússia

Dmitry Babich

A crise na Ucrânia

Yanukovich não tem ninguém para culpar senão ele mesmo

A decisão do Governo da Ucrânia de interromper o processo de preparação para a assinatura do acordo de adesão à União Europeia inspirou uma previsível reação negativa da mídia ocidental. Os governos ocidentais e os diplomatas da União Europeia acusaram a Rússia de fazer “chantagem” para a Ucrânia sair do acordo de adesão. O Departamento de Estado americano expressou seu “desapontamento”, e o chanceler polonês manifestou sua “insatisfação” com o fato de a Ucrânia ter abandonado o projeto europeu nos estágios finais.

Mas seria esta situação tão “preto no branco”, e a Ucrânia realmente “abandonou” sua integração europeia? A expectativa era de que o acordo de adesão entre a Ucrânia e a União Europeia fosse assinado durante a cúpula da União Europeia na assim chamada Parceria Oriental em Vilnius, na Lituânia, no final de novembro. O primeiro-ministro ucraniano, Nikolai Azarov, já explicou que a Ucrânia não está interrompendo para sempre os planos de assinar este acordo (que fica muito aquém da adesão do país à EU). Os preparativos para a assinatura do acordo não estão cancelados, mas suspensos. Qualquer pessoa familiarizada com a política ucraniana sabe que a integração europeia tem sido, e provavelmente continuará sendo, a tendência política mais forte naquele país.

Mas os diplomatas e jornalistas ocidentais já estão com a sua familiar canção sobre a “Rússia arrastando a Ucrânia de volta para a União Soviética” e outros mitos similares. É notável que todos esses comentários sejam feitos sobre uma decisão soberana da Ucrânia, um país que tem um governo democraticamente eleito, cuja legitimidade não é questionada até mesmo por parte da União Europeia. Os ocidentais, obviamente, não consideram insultuosas as suas reações contra a soberania da Ucrânia, sobre a qual eles são tão sensíveis sempre que o país tem um desacordo com a Rússia.

Mas o maior problema para o presidente ucraniano Victor Yanukovich é a reação da oposição nacionalista ucraniana. Seus líderes chamam Yanukovich de “assassino da esperança”, entendendo que “esperança” seria o cumprimento de todas as exigências da União Europeia e, é claro, a destruição de todas as pontes com a Rússia. Os partidários do nacionalista radical Oleg Tyahnybock e da ex-primeira-ministra presa Yulia Tymoshenko se recusam a ouvir os argumentos econômicos do Primeiro-Ministro Nikolai Azarov, que explicou que a zona de livre comércio da Ucrânia com a União Europeia iria fechar a fronteira russa para os produtos ucranianos, forçando uma queda de 6% a 19% na indústria ucraniana. Rostislav Ishchenko, o presidente do Centro para Análise e Prognóstico, com sede em Kiev, faz uma previsão ainda mais pessimista das possíveis consequências feitas por Nikolai Azarov sobre a "opção europeia" para a Ucrânia.

"Há um certo efeito positivo da decisão de suspender a preparação para o acordo: a Ucrânia interrompeu seu deslize para um abismo econômico. A assinatura do acordo significaria que a Ucrânia iria à falência em março-abril do próximo ano. Agora a Ucrânia tem algumas chances. Mas será que a Ucrânia usa essas chances? Isso vai depender da decisão da Ucrânia de aderir ou não aderir à União Aduaneira [com a Rússia, a Bielorrússia e o Cazaquistão]. E isso também vai depender de quando a Ucrânia vai aderir à União Aduaneira. Então, a Ucrânia irá utilizar as suas chances? Ainda é cedo dizer”, afirma Ischenko.

Entretanto, surge a questão: se toda a intriga com a União Europeia ficou “suspensa” durante o estágio final, quem vai assumir a responsabilidade pelos prejuízos que a Ucrânia já tinha sofrido por causa disso?

O portal da Internet baseado em Kiev "Ukrainska Pravda", fundado pelo falecido Georgy Gongadze, famoso jornalista investigativo da década de 1990, citou a fala de Yanukovich ao comissário europeu Stefan Fuelle, que dizia que a Ucrânia iria perder 8,5 bilhões de dólares antes do final do ano. A maioria das perdas seria causada pelo fortalecimento da Rússia da defesa aduaneira na fronteira com a Ucrânia. A Rússia tinha avisado à Ucrânia com antecedência que a entrada da Ucrânia em uma zona de livre comércio com a União Europeia forçaria Moscou a fortalecer a antes semiaberta fronteira com a Ucrânia. De que outra maneira a Rússia poderia reagir? Se os produtos ocidentais poderiam entrar na Ucrânia livremente no quadro da zona de livre comércio, muitos desses produtos iriam inundar os mercados russos até Vladivostok, espremendo para fora os produtos nacionais sem nenhuma compensação para o orçamento russo.

A controvérsia aqui era muito óbvia, com a Rússia oferecendo uma solução. Se a Ucrânia tivesse concordado em aderir à União Aduaneira, Rússia, Ucrânia e Bielorrússia poderiam elevar em conjunto os padrões de qualidade dos seus produtos e, posteriormente, entrar para o mercado da União Europeia juntos. Enquanto isso, Yanukovich por muitos anos tentou sentar em duas cadeiras ao mesmo tempo.

Ele moveu para frente o acordo de associação com a União Europeia, enquanto, ao mesmo tempo, dava garantias à Rússia de sua profunda amizade e preservação do estatuto de observador na União Aduaneira. Mas o momento da verdade veio no final de novembro. De acordo com “Ukrainska Pravda”, o montante total de perdas para a Ucrânia que o acordo de associação com a UE poderia causar equivaleria a US$ 160 bilhões de dólares. Está relatado que Yanukovich teria citado este número para Fuelle, da União Europeia.  

"Os ganhos provenientes da zona de livre comércio com a União Europeia poderiam vir apenas no futuro distante", diz Vadim Karasyov, chefe de um centro de pesquisa em Kiev. "Enquanto isso, a perspectiva para o curto prazo é muito desoladora. A Ucrânia teria que viver por um ou dois anos muito difíceis. E os bônus da associação com a União Europeia não iriam compensar essas perdas.”

A oposição radical nacionalista, que prosperou na Ucrânia desde a chegada de Yanukovich ao poder em 2010, não quer saber das perdas econômicas da “integração europeia”. Limita a sua análise a acusação sem rodeios contra Yanukovich. Ele é acusado de ser "pró-russo" ou ceder às pressões da Rússia. Uma crise política ou, pelo menos, uma queda dramática na posição do presidente são inevitáveis. Na verdade, Yanukovich é parcialmente responsável por isso. Por mais de dois anos, ele foi encorajado pela radicalização da política ucraniana de fechar os olhos para a explosão dos ucranianos neonazistas ou seus aliados mais "moderados”, como Oleg Tyahnybock.

O próprio Yanukovich e alguns líderes do seu Partido das Regiões várias vezes empregaram a retórica “europeia”, sempre colocando o público diante da falsa alternativa “Rússia ou Europa”, como se a Rússia não fosse parte da Europa Oriental. A fórmula mais realística, uma vez sugerida por Mikhail Gorbachev – “Vamos construir uma Europa de Leste e Oeste” – é raramente usada hoje na Ucrânia.

Agora Yanukovich terá que encarar as consequências. E elas não vão se limitar aos protestos nas ruas das cidades ucranianas. O maior problema de Yanukovich é a próxima eleição presidencial de 2015, que ele claramente quer ganhar. Agora nós vamos ter a União Europeia do lado dos seus inimigos. Enquanto isso, os assim chamados observadores independentes, os quais a União Europeia despacha para a Ucrânia e outros países da Europa Oriental, são notavelmente fiéis apenas aos políticos antirrussos – Mikhail Saakashvili na Geórgia, Viktor Yushchenko na Ucrânia. Mas estes mesmos observadores são extremamente rigorosos e implacáveis aos chamados candidatos pró-russos, e Yanukovich agora (muito injustamente) cai nessa categoria.

Yanukovich já teve a chance de ver o quanto são “objetivos” esses observadores europeus. Durante a eleição presidencial de 2004, quando equipes inteiras de observadores ocidentais e simples apoiadores vindo de países como Polônia e Letônia abertamente impulsionaram Yushchenko para a vitória. Curiosamente, quando Yanukovich brigou com Moscou em 2011-2013, essas mesmas pessoas chamaram Yanukovich de "um novo líder conduzindo a Ucrânia para a Europa". Agora Yanukovich terá a chance de ver por si mesmo as "normas europeias" (ou são apenas dois pesos e duas medidas?) nas eleições de 2015.